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Vozes Pescadoras: ação une mulheres pela proteção da Lagoa de Ibiraquera

Atualizado: 13 de out. de 2021

por Gisele Elis

“Nós nos criamos com o pescado. A maioria do alimento da mesa da nossa comunidade era da mãe lagoa. Chego a me emocionar. A lagoa é o berço da nossa comunidade. Dela saía todo o alimento da mesa do nosso povo e as nossas mulheres sempre participaram da pesca”, dizia em voz alta e com muita emoção, aos seus 87 anos de vida, Maria Severino Ferreira.

Imagens do encontro Vozes Pescadoras - Fotos: Ateliê de Cinema


Com essa abertura emocionada, o "Vozes Pescadoras" da Lagoa de Ibiraquera, marcou o início de uma jornada ao lado dessas mulheres ribeirinhas. Percepções aguçadas, detalhes, visões ancestrais e um amplo conhecimento tradicional marcaram a roda de conversa da primeira ação presencial do Projeto "Mulheres da Lagoa de Ibiraquera”, promovido pelo Muc Brasil.

Mulheres reunidas no encontro Vozes Pescadoras - Fotos: Ateliê de Cinema


“Vozes Pescadoras” foi um encontro marcado por profundas reflexões sobre a relação dessas mulheres com sua comunidade e o entorno de uma das principais lagoas do complexo lagunar do sul do Brasil, com mais de 30 quilômetros de extensão, subdividida em quatro lagoas - de cima, do meio, do saco e a de baixo.


O encontro reuniu pescadoras profissionais, mas também esposas, irmãs e filhas de pescadores de Ibiraquera, em Imbituba, território onde o projeto vai acontecer pelos próximos nove meses.

“Moramos num lugar muito especial e nossas vozes serão levadas para outras mulheres, porque muitas mulheres não tem voz, não tem vez. Nós mulheres somos resilientes como a lagoa e não podemos desistir da nossa luta”, destacou a ambientalista e líder comunitária Maria Aparecida Ferreira, a “Cidinha”.

Imagens do encontro Vozes Pescadoras, Cecê em ação na pesca na Lagoa de Ibiraquera - Fotos: Ateliê de Cinema

Entre as participantes, todas de muita luta e resistência no território, destaca-se a presença da primeira pescadora artesanal mulher com carteira profissional do Brasil, Lucenir Gonçalves, conhecida por todos como “Cecê”. Ela tem uma relação ímpar com a Lagoa de Ibiraquera, dela tirou o sustento de seus três filhos e até hoje “corre pelas águas” em busca de alimento e renda. E ainda presenteou a todos, no fim de tarde deste dia, com o “balé” de sua tarrafa na água.

“Ouvir essas mulheres me encheu de alegria e agradecimento pelo ensinamento que elas me proporcionaram. Em comum, senti que todas essas mulheres são esperançosas e muito resilientes, além de estarem atentas aos impactos ambientais que a lagoa sofre”, refletiu a co-fundadora do Muc Brasil, Cristiane Bossoni.

Os impactos na lagoa

Em comum, todas que estiveram nesta roda de conversa, destacaram o problema da ocupação desordenada do entorno da Lagoa de Ibiraquera e a destruição das matas ciliares. “A gente tinha pouquíssimas casas na beira da água. Antes tínhamos árvores, agora são só casas na beira da água. Temos que ter um olhar para não continuar fazendo isso”, disse dona Maria.

“Cecê” ressaltou o cheiro de esgoto que sai na água, o impacto para o pescado e as mudanças que essas espécies estão sofrendo “Mudou a cor do camarão, a quantidade, o peixe tá pouco. Muitas espécies de animais não vemos mais”, disse, se referindo aos impactos notáveis na mudança do entorno da lagoa devido à ocupação desordenada, especulação imobiliária e a falta de saneamento básico.

“Eu me lembro do meu pai pegando balaios cheios de pescado e hoje não vemos mais isso”, acrescentou a mais experiente das mulheres que estavam ali.

Imagens do encontro Vozes Pescadoras, Cecê "tarrafeando" na Lagoa de Ibiraquera - Fotos: Ateliê de Cinema


Com tantos conhecimentos ancestrais e uma visão aguçada do território em que vivem, é importante frisar como a percepção das mulheres é ainda mais detalhada sobre sua comunidade. Suas vozes precisam ser ouvidas e, acima de tudo, precisam fazer parte das decisões sobre seus ambientes de vivência. Quando políticas públicas e legislações são criadas, é preciso que elas estejam nesses espaços para decidir junto, pois é impossível viver com equidade e dignidade, quando não há abertura para essas vozes. Muitas vezes invisibilizadas.

A fala da Conselheira Honorária do Conselho da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (CONAPA), Maria Elizabeth da Rocha, reforça essa percpeção e união das mulheres:“as mudanças no mundo vem da força do feminino”, ressalta.


Saiba mais sobre o Projeto Mulheres da Lagoa de Ibiraquera:

O Projeto Mulheres da Lagoa - de Ibiraquera - busca desenvolver ações de educação ambiental com objetivo de sensibilizar, empoderar e unir as diferentes mulheres que vivem no entorno da Lagoa de Ibiraquera, uma das principais lagoas do complexo lagunar do sul do Brasil, com perímetro de 30,478 km e área: 8,935 km². Uma pequena parte pertence ao município de Garopaba e a maior parte à Imbituba, sendo a parte da barra, abrangida pela Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF).

Você pode acessar todas as informações do projeto na matéria: Projeto Mulheres da Lagoa trabalhará a luta por igualdade de gênero e justiça ambiental

Acompanhe o Projeto através do nosso site e também em nosso Instagram.

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Jornalista responsável: Gisele Elis (MTB 6822)

Diagramação: Cristiane Bossoni _______________________________________________________________________________


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