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Aumento da temperatura causa prejuízo em plantações de mandioca no sul de SC

por Gisele Elis


O aumento de temperatura no sul do estado de Santa Catarina já tem consequências visíveis na agricultura da região. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Entomologista e Pesquisadora da Epagri, Erica Frazão de Lorenzi, ao comprovar que um inseto, conhecido como a “Mosca do Broto”, está prejudicando as plantações de mandioca desta área do estado, devido ao aumento da temperatura média ao longo dos últimos anos.

“A praga da mandioca, como é conhecida, já era presente, desde a década de 60, na região de Florianópolis e no litoral norte, por terem climas semelhantes. Na safra de 2015, começou a aparecer nas plantações do sul do estado e causar danos. Começamos a monitorar, fizemos diversos experimentos em laboratório e em campo, sempre pesquisando sua relação com a temperatura”, explica a pesquisadora.

À esquerda imagem da mosca do broto, à direita o broto da mandioca atacado pela praga da mandioca - Fotos: Arquivo pessoal Nilziane Rodrigues da Silva

O estudo concluiu, após analisar dados de estações meteorológicas desde 1924, que a média da temperatura mínima e máxima, aumentou pelo menos em 1⁰C, no sul de Santa Catarina. “Em termos de biologia, para insetos e plantas, isso é muita coisa e traz mudanças significativas. Quanto mais quente, mais os insetos se adaptam. A praga que gostava de climas mais quentes, migrou para o sul e vem trazendo prejuízo aos agricultores”, destaca.

Em Sangão, no sul do estado, a agricultora Nilziane Rodrigues da Silva, conta que vem sofrendo há sete anos com a proliferação desse inseto na sua plantação.


“Há cinco anos, perdemos toda nossa lavoura. É muito impactante, porque ela ataca o broto da mandioca, suga todas as vitaminas e não deixa o pé crescer. Tivemos um grande prejuízo. Aqui não tem um agricultor que não esteja sofrendo os prejuízos dessa praga”, relata a agricultora de 36 anos, mãe de três filhos.

Colheita da mandioca - Fotos: Arquivo pessoal Nilziane Rodrigues da Silva

O estudo desta praga vem demonstrando que sua maior ou menor população está diretamente associada a condições climáticas favoráveis e às variedades utilizadas. “No caso de um verão precedido de um inverno mais ameno as populações normalmente são mais elevadas. No caso de um inverno mais frio e prolongado, a população de moscas nessa época em que normalmente ocorrem é menor. Além da questão climática, tem-se observado que as variedades consideradas como mandioca de mesa ou aipim apresentam maior incidência da praga, apesar desta ocorrer tanto em mandioca de mesa quanto de indústria”, destaca a pesquisadora.


Os produtores rurais de Sangão, Jaguaruna e Araranguá, são responsáveis por 50% da produção de mandioca no sul do estado. A outra metade se espalha pelos outros municípios litorâneos. “Estimo que tenha entorno de quatro mil hectares de área plantada nesta região”, diz o pesquisador da Epagri, Marco Remor.

Controle da praga da mandioca:

O controle da praga é algo ainda em fase de estudos e requer o uso de inseticidas, que demandam atenção dobrada e outras consequências ainda sem comprovações suficientes.


O controle da praga vem sendo estudado nos últimos anos, assim como a melhor estratégia de manejo e convivência. “Atualmente existe um inseticida registrado para controle da praga na cultura e foram identificados dois outros princípios ativos passíveis de uso por já serem registrados para a cultura, porém com outro alvo biológico, mas que possibilitam a rotação no modo de ação do inseticida. Inseticidas biológicos e alternativos também vem sendo estudados para recomendação aos produtores orgânicos, acreditando-se que a médio prazo teremos alguma recomendação neste sentido”, explica a entomologista da Epagri.


O manejo das ramas na entressafra também é um aspecto crucial para redução da infestação de uma safra para outra, pois as larvas podem sobreviver nas ramas e entrar no solo contaminando a lavoura seguinte. Também sobrevivem em plantas consideradas de dois ciclos.


Época do cultivo mudou

"Tradicional mente o nosso cultivo se estende nos meses de Agosto e Setembro porém em função das estiagens nos últimos 10 anos vem ocorrendo na região, o período de plantio está se estendendo até 15 de novembro", explica Remor.


Os 100 primeiros dias de bom desenvolvimento da Cultura são fundamentais para uma boa produção. Nesse período se definirá o número de raízes que a planta desenvolverá. Um ataque da mosca nesse período diminuir a produtividade da lavoura.


“O plantio antecipado é uma estratégia que permite fugir da época de maior ocorrência da praga, que na nossa região”, complementa Lorenzi.


Estiagem também prejudica plantações:

Em 2021, a estiagem vem castigando Santa Catarina, com mais de 30% dos municípios em alerta, principalmente no oeste. De acordo com a Defesa Civil, em função da estiagem, 34% dos municípios estão em estado de atenção, 3% em alerta e 5% em estado crítico em relação ao abastecimento urbano. “Estamos verificando o comprometimento do abastecimento em diversos municípios, assim devemos manter as medidas de economia de água”, comentou o chefe da DCSC, Alexandre Waltrick. Mais de quinze municípios decretaram situação de emergência em função da estiagem este ano.

De acordo com os monitoramentos realizados por pesquisadores da Epagri, baseados em modelagem meteorológica com zoneamento agrícola, os impactos previstos em relação às alterações climáticas são maiores para a região oeste do estado. Fato já registrado atualmente no que se refere à estiagem.

“É preocupante, temos notado nos últimos anos que a terra está ficando mais seca para plantio, não chove o suficiente para deixar a terra molhada e propícia para o cultivo”, desabafa a agricultora de Sangão.

Fotos: Arquivo pessoal Nilziane Rodrigues da Silva

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Jornalista responsável: Gisele Elis (MTB 6822) Diagramação: Cristiane Bossoni

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